“En quête de sens” ou o altermundialismo entusiasta

Escrito por Aimée Le Goff, traduzido por Déborah Spatz
9 Mai 2015


No meio do caminho entre um documentário altermundialista e um road-movie, “En quête de sens” (Em busca de sentido, em português), realizado por dois amigos, nasceu de uma necessidade de interrogar as nossas sociedades contemporâneas e o nosso modo ocidental moderno de pensar. Encontro com Marc de la Ménardière, co-autor do projeto.


Marc e Satish Kumar, Crédito Nathanaël Coste
Antes de viajar para a Índia com o seu amigo de infância Nathanaël Coste, Marc de la Ménardière era um desenvolvedor de negócios para uma multinacional em Nova Iorque. O seu trabalho era: vender água em garrafa francesa e dar a ela uma imagem de produto de luxo. Uma vida bem oposta a de seu amigo que se tornou diretor e produtor de filmes sobre o meio ambiente. Em 2008, quando Marc quebra a sua perna e fica de cama durante dois meses após um acidente, Nathanaël lhe dá alguns documentários para assistir. É o início de uma reação, de uma conscientização. Marc deixa Nova Iorque e acompanha Nathanaël pelas estradas, a procura de um sentido e de novas respostas.

Após uma dessas viagens, de períodos de montagem e de busca por financiamento, En quête de sens resulta em um filme de uma hora e vinte minutos e encontra um sucesso inesperado. Mais que um documentário, é um concentrado supremo de encontros, muitas vezes espontâneos, com interlocutores tanto diversos quanto inspirativos. Astrofísicos, sociólogos, responsáveis de ONGs, xamãs e ativistas, todos se expressam e se juntam para dar algumas dicas de compreensão do nosso mundo complexo. Uma ideia nasce disto: a sociedade ocidental está doente e a interdependência entre as disciplinas é necessária para entender o mundo, a experiência humana. Para eles, o modelo de economia atual, mesmo que tenha demonstrado a sua eficiência, não funciona mais. Explicações de Marc de la Ménardière.

Quanto tempo demorou a realização do projeto com Nathanaël?

Registramos os primeiros rushs em novembro de 2009. Primeiro viajamos para a Índia durante dois meses, depois para o México, em seguida para os Estados Unidos. Voltamos pra casa por um tempo e depois viajamos de novo, especialmente pela América latina. Quando voltamos definitivamente, demoramos um pouco mais do que o previsto para cuidar da montagem e para conseguir produtores mas também para saber o que queríamos, dar a melhor forma para o projeto. 

Como foi em Nova Iorque quando você quis largar tudo e ir embora?

Demorou um pouco, mas eu já estava no fim de um contrato, eu não sentia mais nenhuma motivação para recomeçar uma nova missão. Eu realmente queria fazer outra coisa. Em Nova Iorque, às vezes, eu já me interrogava sobre este sistema. Também vivi seis meses na Bolívia antes de chegar em Nova Iorque, então eu já tinha uma conscientização sobre esta ideia, que  já estava cortada, de ligação com a natureza. Mas depois esquecemos das coisas, queremos conseguir dinheiro, etc.

O filme foi financiado por 963 internautas. Você pensa que isto é testemunho de uma necessidade de ver nascer projetos mais entusiastas?

Sim, certamente. Ficamos até muito surpresos: queríamos conseguir 12 000 euros para divulgar o filme, conseguimos 40 000! Há um provérbio budista que diz: “se você identificou um problema, comece propondo a solução”. É realmente o recado do nosso filme. Existem muitos documentários que informam, que denunciam. Aliás, eles são muito úteis, no entanto completamente ansiogênicos, até mesmo moralizadores. A maioria das vezes, eles nos dão uma impressão de que somos impotentes diante do que acontece à nossa frente, diante dos problemas ecológicos, da destruição da natureza etc. Nós queríamos mostrar o que acontece com mais ligeireza e mais entusiasmo, mostrando que haviam soluções, que as coisas aconteciam realmente e que todos podiam agir.

Como vocês conheceram todos estes interlocutores sendo que começaram de improviso total?

Tivemos muita sorte no início. Tudo começou após um seminário na Índia, onde conhecemos a ativista ambiental Vandana Shiva. Depois disso, pudemos conhecer várias outras personalidades. Estes encontros nos levaram a reorientar o filme e a nos distanciar de tudo que parecia cartesiano. Aliás, Descartes estava completamente errado em sua linha final, quando ele reduzia o mundo a uma grande máquina, separando tudo. Estes raciocínios levam à destruição. Queríamos denunciar esta inteligência mecanista, esta separação das coisas que leva a uma abordagem totalmente materialista. Com Vandana Shiva, queríamos destacar esta ideia de unidade do Vivente, de múltiplas possibilidades, que todas as coisas são ligadas entre si. 

Vocês deixaram pessoas de especialidades muito diferentes se expressarem. Foi com o objetivo de alcançar um público muito diverso ou por necessidade de adotar posições diferentes?

Antes de tudo queríamos mostrar que o mundo no qual vivemos é muito complexo mas que todas as disciplinas são complementares. É o princípio do pensamento completo que induz a não dissociar mas ao invés disso, achar uma solução na interseção de todas as coisas. Tentamos construir um filme ao redor desta ideia de interdependência, de completariedade, mostrando inclusive que no mundo existem outras maneiras de raciocinar. Daíientão a necessidade de falar com todas estas pessoas que se juntam, todas, para as mesmas conclusões finalmente.