Grã-Bretanha: rumo a uma mudança de status para as escolas privadas?

Juliette Perrot Traduzido por Edna Vieira
6 Février 2015


O especialista em educação e membro do partido trabalhista Tristram Hunt anunciou no fim de novembro que, em caso de vitória dos trabalhadores nas próximas eleições, o partido usará os benefícios fiscais dos quais beneficiam actualmente as escolas privadas inglesas. Análise.


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Consideradas como instituições de “utilidade pública”, as escolas privadas britânicas beneficiam de reduções fiscais. Esta noção, no entanto, é problemática segundo Tristram Hunt, que deseja que esses benefícios não se apliquem só a escolas privadas, mostrando um real “interesse público”, como aqueles que desenvolvem parcerias com instituições públicas. Essas parcerias constituem-se do envio de professores das escolas publicas para as privadas, ou ainda em estabelecer cursos comuns a fim de misturar os alunos de diferentes instituições. De acordo com Tristram Hunt, na ausência de tais laços entre as escolas publicas e privadas, os benefícios fiscais dos estabelecimentos privados devem ser retirados. 

O anúncio de Tristram Hunt gerou muitas reações no mundo da educação. Do lado das escolas privadas, os opositores ao projeto criticam a imagem estilística que é feita da educação privada e afirmam que as parcerias entre escolas privadas e escolas públicas já são muito desenvolvidas na Grã-Bretanha. Do lado da escola pública, os professores consideram que Tristram Hunt os trata com condescendência ao afirmar que deseja envolver os professores das escolas privadas dentro de suas instituições.

Além da oposição entre escolas públicas e escolas privadas

As desigualdades do sistema educacional britânico não estão unicamente ligadas à presença de escolas privadas. O fator geográfico é uma realidade a ser levada em consideração, uma vez que na Grã-Bretanha os alunos frequentam as instituições públicas em função de onde moram. As escolas públicas que têm uma excelente reputação geralmente encontram-se em bairros mais favorecidos, e recebem, portanto, alunos de famílias ricas que têm condições financeiras para morar nesses bairros. A questão que surge, portanto, é saber quem são os alunos mais privilegiados entre aqueles que frequentam uma excelente escola pública devido aos seus pais terem condição financeira para comprar uma casa mais cara, ou aqueles que fazem parte de uma escola privada cujos custos de escolaridade são particularmente altos. Um estudo realizado em agosto de 2014 pelo banco Lloyds mostrou que alguns pais estavam dispostos a pagar até meio milhão de libras para morar em uma área permitindo assim que seus filhos fizessem parte das melhores escolas públicas.   

Escolas públicas vs. escolas privadas: quais as reais diferenças?

Os alunos britânicos tomam uma importante decisão aos 16 anos de idade, dois anos antes de passar em seus exames finais (Nível A). Trata-se do momento em que eles devem escolher de quais universidades eles querem fazer parte, e, portanto, a universidade na qual eles querem estudar. Essa escolha é crucial, pois ela influencia as matérias que eles estudarão e que os permitirão ou não de fazer parte dos cursos universitários que eles querem. Quanto mais as matérias são solicitadas pelos alunos, mais a seleção fica difícil. Assim, há escolhas estratégicas a serem feitas, e elas são bem conscientes nas escolas privadas. Essas mantêm fortes laços com as universidades mais prestigiadas da Grã-Bretanha e têm, com efeito, a exigência de fazer provas relacionadas à admissão de seus futuros alunos. Os professores das escolas privadas são, portanto, mais capazes de aconselhar os seus alunos e de conduzi-los aos ramos ou universidades onde eles terão mais chances de alcançar o sucesso. As estatísticas mostram que as escolas privadas têm, geralmente, menos candidatos, mas são melhores do que as escolas públicas.

A noção de “utilidade pública” justificada pelas escolas privadas através da atribuição de bolsas de estudos

A meritocracia constitui um forte valor no sistema educacional britânico e ela é favorecida por muitas escolas privadas através da atribuição de bolsas de estudo para os alunos merecedores. Essas bolsas de estudo são apresentadas por opositores de Tristram Hunt que as consideram como uma maior “utilidade pública” do que as parcerias criados entre escolas públicas e escolas privadas. Para reduzir as taxas de matrícula, ou mesmo eliminar alguns alunos, as bolsas de estudo seriam, assim, a maneira de oferecer oportunidades reais aos estudantes. 

É um argumento que já não se sustenta, segundo alguns professores que consideram que a atribuição de bolsas de estudo é uma maneira das escolas privadas atraírem os melhores alunos do país. Um número considerável de britânicos parece concordar e aprovar as propostas de Tristram Hunt. De acordo com uma pesquisa recente realizada pelo instituto YouGov, 41% deles gostariam que fossem eliminados os benefícios fiscais que atualmente beneficiam as escolas privadas na Grã-Bretanha.

Questionar os benefícios fiscais dos quais beneficiam as instituições privadas pode ser considerado como o primeiro passo para reduzir as desigualdades produzidas pelo sistema educacional britânico. As desigualdades sociais parecem, ainda assim, estar no centro do problema, pois os alunos mais favorecidos encontram-se nas melhores escolas do país, sendo elas públicas ou privadas.